Segunda-feira, 13 de Janeiro de 2014

JOSEFA D' ÓBIDOS (1630-1684)

 

 Na noite de Natal ardeu o quadro da Senhora do Leite

que se encontrava na sacristia da Igreja do Convento do

Buçaco. Ao que parece, chovia no local como na rua

e ninguém se lembrou da existência dum quadro da autoria

de Josefa de Òbidos, datado e assinado pela autora.

Na origem do desastre um curto circuito, mas nos dias de

hoje não há por toda a Europa quadros desta valia sem proteção

contra curto circuitos e incêndios , em muitos países obrigatório

por legislação adequada.

Nu Buçaco, Fundação e Câmara da Mealhada que lhe dá apoio,

não sabem do assunto e encolhem os ombros perante a perda 

irremediavel do património. Não há responsaveis pela destruiçao

dos bens públicos, uma curiosa maneira de estar  na gestão

do património comum.

Abaixo fica a memória da obra, cujo valor de mercado andaria

pelos oitenta , cem mil euros na pior das hipoteses.

 

 

 O quadro seiscentista que ardeu no Convento do Bussaco

 

                 QUEM FOI JOSEFA DE ÓBIDOS 

 

                            (1630 – 1684)

 

Nascida em Sevilha em 1630, veio para Portugal, país de onde era natural

seu pai, o pintor Baltazar Gomes Figueira, tendo sido

conduzida para o noviciado em Coimbra onde executa a sua primeira obra

de arte conhecida – a representação de Santa Catarina(1646).

Não se adaptando à realidade do convento, Josefa instala-se em Óbidos

e inicia uma intensa actividade na área da pintura, primeiro colaborando

com seu pai e, depois, autonomamente, granjeando bastante fama nacional

e internacional.

Sendo uma rara excepção à regra, quebrou muitos dos cânones de uma

sociedade predominantemente masculina, estabelecendo-se profissionalmente

como pintora. Não sendo a única mulher praticando esta actividade, Josefa foi,

contudo, um expoente, já que, de facto, a sua atitude perante a pintura não

era a de uma mera curiosa ou artífice, mas sim de uma verdadeira artista,

com capacidades criativas, um apurado sentido estético e um forte

domínio técnico.

O estudo da luz e dos contrastes que compõem a corrente proto-barroca

de matriz peninsular, intimamente relacionada com a pintura sevilhana e

madrilena, são marcas importantes no percurso e na definição artística de

Josefa d’Óbidos, colhendo ensinamentos na observação de obras de grande

vulto, ou directamente com os mestres, alguns deles ligados à sua própria família.

Zurbarán, Francisco de Herrera, Valdez Leal, André Reinoso e o próprio pai,

Baltazar Gomes Figueira, para além de mais remotamente Caravaggio,

são nomes que se associam à sua aprendizagem artística. Contudo, se Josefa

não supera alguns dos nomes mais importantes da pintura seiscentista peninsular,

acrescenta-lhe seguramente uma nova tónica, onde o misticismo doloroso,

algo violento e majestático dá lugar ao misticismo terno, tão bem representados

nos Meninos Salvadores do Mundo, com as suas vestes translúcidas, rendadas

e decoradas de pequenas jóias e flores, conferindo-lhe um carácter singelo;

mas que também pode ser intimista no caso das telas que representam o 

Senhor da Cana Verde ou a Toalha de Verónica (na Misericórdia de Peniche).

Esta ingenuidade aparente, que transforma as figuras sagradas em elementos

algo irreais é, no entanto, contrariada em obras de grande qualidade técnica,

surgindo naturezas-mortas e retratos de grande fidelidade. Note-se uma das

maiores obras-primas da pintura portuguesa de Seiscentos, o Retrato do

Beneficiado Faustino das Neves, actualmente patente no Museu Municipal.

Morreu em Óbidos, em 1684, com uma vasta obra produzida e espalhada pelo

país e estrangeiro. Muitas das suas obras desapareceram com o tempo, com a

mudança dos gostos artísticos e com o terramoto de 1755. Hoje a sua obra

encontra-se dispersa em organismos do Estado (museus, embaixadas, etc.),

em fundações, igrejas e em casas particulares.

O seu legado artístico tem vindo a merecer uma crescente atenção por parte

dos historiadores de arte e museólogos, registada nas exposições da Academia

Nacional de Belas-Artes (1942), no Museu de Arte Antiga de Lisboa (1949),

em Óbidos, na Igreja de São Tiago (1959), na Galeria Ogiva (1971) e no Solar

de Santa Maria (1984), na Galeria de Pintura do Rei D. Luís no Palácio da Ajuda (1992)

e, mais recentemente, no National Museum of Womem in Arts de Washington e

em Londres, no Instituto Italiano (1997), onde esteve patente, também,

a presente obra. 

(texto retirado no Catálogo do Museu Municipal de Óbidos)

  

publicado por Peter às 18:05

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Sexta-feira, 5 de Abril de 2013

FUNDAÇÕES OU PALHAÇADAS?



No ano passado a gestão da Mata Nacional do Buçaco foi avaliada por iniciativa do Governo através duma comissão especialiazada e ficou-se pela nota mediocre de 44% .

Foi-lhe por tal motivo cortado o apoio com os dinheiros públicos, o nosso dinheiro !
Esta semana, numa visita do Sr. Secretário das Florestas, Gomes da Silva,  foi trazido um folar da páscoa á dita fundação.

Afinal, dando o dito por não dito, não sai dinheiro do

orçamento mas do município. Bom, o saco é o mesmo, mas desta vez é retirado dos municipes do concelho da Mealhada para gastar num bem nacional.

Mais, o Sr. Secretário de Estado afirmou confiar na gestão da Fundação.
Em que ficamos?

Há um ano atrás, avaliados por uma comissão e especialistasteve gestão medíocre, este ano, pela voz do Secretário de Estado das Florestas (Diário de Coimbra de 19/03/2013) obteve gestão de confiança

Da secretaria de Estado? Do ministério?
Afinal que palhaçada será esta?

 

publicado por Peter às 22:54

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Sábado, 16 de Março de 2013

A GRADE DE S. JOSÉ


Se há coisas no Bussaco feitas pela natureza,muitas mais há  

pela intervenção da mão do homem.

Uma delas, singela, modesta, mas protetora, é a grade

ou a gaiola gradeada que circunda o mais veljo exemplar

do cedro do Buçaco, agora destruido nas suas ramas

gigantesca pela fúria da tempestade e pela incuria humana.

Essa grade foi fabricada no Luso em 1935 pelo ferreiro

Abilio Ferreira com a ajuda de Alipio da Silva, aprendiz,

e Benjamim Ferreira, sobrinho do autor.

Foi aplicada naquela data seis metros acima do velho

tronco que ficou soterrado debaixo da peanha ainda

existente ,onde foi encerrada a árvore.

(Inf Benj.)

publicado por Peter às 23:20

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Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2013

MOINHO DE SULA /CONTO

 

O Moleiro de Sula

Júlio Dantas

 

                                Nota: Da pouca ficção que existe acerca da Batalha,este conto de Júlio Dantas  está entre a mais conhecida. Embora a sua leitura não seja demasiada extensa , é sempre um desafio transcrever o conto num espaço restrito como este. No entanto, para os leitores interessados no assunto, aqui o deixo, certo de que o acesso ao texto nem sempre é fácil ou acessivel )

   Naquela madrugada de Setembro, quando o clarão do nascente começava já a pintar a encosta do Buçaco e o rolão branco das névoas dormia ainda no fundo do vale, uma patrulha portuguesa de dragões ligeiros, que atravessava a serra a caminho de Coimbra, parou na Moira à porta do ferrador e, como não lha abrissem, seguiu para Sula com um soldado ferido a sangrar da arreigada da orelha e a montada do sargento manquejando porque se embaraçara no mato e lhe saltara um cornozelo. Ao tropear dos cavalos, o povo acudiu, mal estrovinhado ainda. A tenda e a forja ficavam paredes-meias debaixo do mesmo telheiro, donde pendia, aceso, um lampião de ferro. Os homens beberam, trouxeram uma selha de água da fonte para o soldado ferido lavar a orelha, os moços da forja tomaram conta da besta desferrada e, daí a pouco, toda a gente sabia que os franceses estavam em Tondela, que houvera tiroteio em Mortágua entre as guardas-avançadas de Massena e a divisão ligeira de Crowfurd, e que, ou os invasores cortavam para Aveiro, marchando daí sobre Lisboa - o que era menos provável -, ou metiam pela serra, descendo, de um salto, até Coimbra. O terror apossou-se do povo. Pois quê? Nem na serra, junto de um mosteiro abençoado de Deus, os deixavam tranquilos? As mulheres assomavam às portas, desgrenhadas, com os filhos ao colo, gritando. Um pastor mocinho, de cajado de zambujo e capucha de burel, que subia com o gado, voltou com ele para o curral. Carros de lavoura, jugos de bois atravancavam já o terreiro. Fugir? Para onde? O sargento mandou recolher as mulheres, falou à puridade aos homens. Que se deixassem estar sossegados nas suas casas enquanto não recebessem ordens das autoridades militares. Depois, a patrulha picou de esporas e seguiu, montanha acima, já na raçada do sol, pelo carreteiro, aberto no mato, que tornejava os penedos e os moinhos de Sula.

   - E agora, pai? - perguntou a filha do ferrador, espreitando à porta, pálida, a barriga à boca, um rosário a tremer-lhe nas mãos.

   - Agora - respondeu o velho - será o que Deus quiser.

 

   De Moira, onde chegara já a notícia, vinha gente espavorida. Enxadas às costas, os homens válidos do lugar, antes de seguirem para o trabalho, paravam na tenda a pedir conselho aos velhos. Começavam a avistar-se, para os lados de Santa Comba, nuvens de fumo confundidas a princípio com a névoa que boiava no vale, depois negras, espessas, picadas de faúlhas batidas do vento. Não deviam ser ainda os franceses. Eram os povos, que incendiavam casais, celeiros, adegas, abegoarias, para que nada caísse nas mãos dos invasores. Vozes de mulher entoavam o Bendito. Uivavam cães, com fome. Foi então que os homens de trabalho, sentados com o ferrador debaixo do telheiro, viram assomar na estrada, subindo pacificamente a encosta, sentado na alforjada de um jumento, um homem gordo, chambão, risonho como umas Páscoas, um lenço vermelho atado na cabeça, as pernas bamboando apertadas numas polainas de saragoça de varas, o capote pelos ombros, - tão salpicados de farinha, o burro, os alforjes e o homem, como se viessem debaixo de uma geada de Dezembro. Era o moleiro de Sula, que trabalhava por conta do convento e que seguia, com serenidade evangélica, o seu caminho.

   - Tio João Rana! - jogou-lhe, à passagem, o ferrador. - Para onde vai vossemecê?

   - Para onde vou? Vou para o moinho.

   - Não vá, homem.

   - Tenho lá muito trigo para moer. Só se vossemecê quer que o moinho venha ter comigo.

   - Não vá, que vêm aí os franceses.

   João Rana parou o burro, piscou os olhos, esfregou o nariz às costas da mão lanzuda, sacudiu uma risada e perguntou para a mafra do terreiro:

   - Então, onde é que eles vêm?

   - Não vê, além, o fumo?

   - Vossemecê cuida que eles botam cá ao cimo da serra?

   - São como os milhafres.

   - Não têm barbas para isso. A serra é alta, e há por aí cada S. Judas de cada penedo, que em rebolando pela montanha abaixo acabam-se os franceses todos. - Querem vossemecês alguma coisa para o convento? Então, com sua licença, salve-os Deus.

 

 

 

Os trabalhadores foram pegando nas enxadas e abalando para o campo, enquanto o moleiro seguia o seu caminho, pachorrento, jovial e tão seguro de si como se os franceses ainda lá viessem longe, batendo as panelas velhas dos tambores pelas charnecas de Espanha. Toda a serra resplandecia. Das moitas de giesta levantavam-se revoadas de estorninhos. Adiante do homem e do burro, batidos da luz rasa do Sol nascente, alongavam-se pela montanha as sombras de um burro e de um homem gigantescos que marchavam, no seio da natureza, em plena paz e em plena beatitude. Chegado ao alto de Sula, João Rana contornou o cabeço, crista eriçada de tojo e de penhascos, galgou o córrego estreitinho, - e ei-lo na pequena chapada, varrida de vento e nua como a palma da mão, donde se debruçava o seu moinho, o seu querido moinho, que era a sua família e o seu mundo. Dos três, que outrora ali velejavam à chegada dos frades, um - mais ao norte - abatera-o o raio; outro, o do Jerónimo, estava fechado por morte do dono e abandono dos filhos; só aquele na aba da serra se encontrava em laboração. O moleiro desceu do burro, tirou do alforge uma manusca de fava que o animal fraternalmente lambeu, travou mão do chaveirão, que trazia na algibeira do ferragoulo, e meteu-o à porta. O seu moinho! Trescalava a trigo, a feno, a leite, à flor do tojo queimada do sol. O roço, a mó, as cambeiras, os sacos de cereal para moer, que pojavam no chão, tudo estava branco de farinha, penetrado daquele bafo cheiroso de eucaristia, daquela poeira lavada e alvíssima, que se sentia na boca e que apetecia beijar. Havia qualquer coisa de religioso nesse esconso rústico, nesse tosco engenho - o mastro, o tegão, a entrosga - que um sopro de aragem movia e de onde ia o pão levedar nas masseiras do convento, encher os arções da cozinha, aloirar nas escudelas de estanho do refeitório dos frades. João Rana tirou o capote; veio fora; meteu-o na alforjada do burro; prendeu o animal ao arganéu de ferro chumbado na soleira da porta; alou as velas; voltou ao moinho para deitar o grão na tremonha; subiu a escaleira íngreme; jogou do sarilho para regular o vento; o fuchal rangeu; chiou o mastro no bácoro de bronze; e, daí a pouco, esticaram as espias, bojaram as velas, as cantarinhas cantaram e, no esplendor da manhã, esbelto e branco no alto da serra, o moinho de João Rana pregava o seu sermão da montanha estendendo humanamente os braços para os homens e para Deus:

   - Passem de largo o ódio e a morte. Eu sou o pão e a vida!

 

   Já o Sol declinava. O moleiro de Sula, terminada a faina daquele dia, travou o engenho, caçou as velas, ensacou a farinha, carregou o burro, benzeu-se, fechou a porta, - e lá foram ambos, o asno à frente, ele atrás, a caminho do convento. Ia já ao pé da ermida das Almas quando ouviu toques de clarim. Parou, para se orientar. Seriam os franceses? Como, se eles, de manhã, ainda estavam em Tondela? Pensou em voltar para o moinho. Mas os clarins soaram de novo - desta vez, nitidamente, do lado da mata - acompanhados de guinchos de gaitas-de-foles. Eram os ingleses. João Rana, curioso, em vez de entrar pela porta da cerca que dava para a cozinha, para o quintalão e para o tinelo dos leigos, foi de volta, e ia já a assomar ao terreirinho do mosteiro quando uma vedeta portuguesa de dragões lhe atravessou à frente o cavalo. Voltou para trás, tornejou o muro, entrou, e ficou atónito perante o alvoroço e a confusão que iam na cozinha dos frades. Quebrara-se a clausura; vagueavam soldados pela assassaria pedindo de comer; e aquele silêncio da cartuxa, cuja observância era já fisicamente necessária aos padres carmelitas, dera num vozeiro de estalagem, indigno de tão piedosa casa. Todos os frades trabalhavam. Uns, remangados, depenavam frangos; outros, de navalha nas unhas, cortavam cebola; o leigarraço do forno, nu de peitos e de braços, revolvia com a pá de ferro os toros do brasido; frei José dos Arcanjos, donato velho, amigo de João Rana, brunia e rebrunia o caldeirão de cobre em que ia, naturalmente, adubar-se a ceia. Da soleira da porta, o moleiro e o burro olhavam espantados, encarando-se volta e meia, como se perguntassem um ao outro que pouca-vergonha era aquela. Frei José dos Arcanjos emborcou no escano o arame luzidio, ajudou João Rana a apear a alforjada e disse-lhe que o Diabo em pessoa ia chegar à casa de Deus. O general Artur Wellesley - maioral inglês das tropas, como lhe chamava o leigo -mandara aviso de que vinha hospedar-se no convento; o largo estava já coalhado de tropa; a Comunidade, havia duas horas fechada na Casa do Capítulo, praticava ainda sobre a maneira por que lhe cumpria receber o General, - no claustro ou na portaria, com cruz alçada ou sem ela. Nisto, quando o mulateiro levava a cavalgadura, ouviram-se de novo os clarins; as garridas do convento responderam, repicando; e todos os leigos da cozinha, sofraldando os chiotes de estamenha, deitaram a correr para a portaria.

   - Sempre quero ver a cara do homem, - resmoneou o moleiro, seguindo, sem atrigar o passo, na peugada dos frades.

  O conventinho da serra, da traça de Frei Alberto da Virgem - pequena catedral de embrechado construída para uma comunidade de ratos e de toupeiras -, abria a sua escada e os seus três arcos de volta redonda, sem sombra de silharia, para um vasto rossio, roçado do mato, que por um lado ia até às brenhas da floresta, incendiadas àquela hora pelo clarão do poente, e por outro - a nunca; Roberto Crowfurd, o comandante da Divisão ligeira, alto, hercúleo, violento, pendurado no seu grande cachimbo; o valente Spencer, sempre de capote branco para demonstrar praticamente que as balas fugiam dele; Hill, calvo e magríssimo; Colle, da 4.a Divisão; Leith, da 5.a; o general da cavalaria, Cotton, ofuscantes nas suas casacas vermelhas, os bicornes negros debaixo do braço, generais moços para quem uma batalha era, como um baile, uma lição de elegância. As últimas notícias confirmavam a intenção dos franceses de ganhar Coimbra atravessando o Buçaco. Tinha de reunir-se o Conselho de guerra. Wellesley fez sinal aos generais para o seguirem e dirigiu-se ao convento onde, no alto da escada, o aguardava o Prior, acompanhado apenas de dois padres discretos. Frei Manuel do Sepulcro, pálido, balbuciou algumas palavras de boas-vindas e ergueu as mãos trémulas num vago gesto de bênção. Mas ninguém atentou nele. Wellesley entrou pela portaria, de chapéu na cabeça; os generais seguiram-no, de roldão; apenas Crowfurd, que falava o português, se lembrou de perguntar ao Prelado, atirando-lhe à cara baforadas de fumo, onde ficava o quarto de Lord Wellington. Frei Manuel pediu licença para os acompanhar, deteve-se diante da última porta da direita antes de chegar ao claustro, e, baixando os olhos, murmurou, confuso e humilde:

   - É a minha cela. Não temos outra menos pobre para oferecer a Sua Ilustríssima.

   - His Excellency! - emendou Picton, franzindo o sobrolho e enterrando o chapéu alto até às orelhas.

  Quando se abriu a porta do quarto que a Comunidade destinara a Wellesley, os generais entreolharam-se. Era um rebaixo de telha vã, cavado na terra, que recebia luz de uma fresta de grades e onde só se podia entrar dobrado pelos rins, lura de coelhos ou toca de animal bravio que os servos de Deus - desafeitos já a mimos na dureza e na miséria do cenóbio - tinham entretanto alindado, estendendo sobre o catre um pano de damasco vermelho trazido do arcaz da sacristia, enchendo de água pura um cantarinho de barro ressumante e deixando à vista - porque era a mais rica alfaia do aposento - o bispote de prata que as freiras de Lorvão lhes haviam mandado de presente quando, em tempo, se esperara no conventinho a visita da Rainha viúva de Inglaterra. Wellesley gostou da novidade - "very well! very well!" -, baixou a cabeça, entrou na cela onde dois homens não caberiam e, com aquela ponta de humor que caracteriza a história anedótica da bravura inglesa, convidou os generais a entrar e a sentarem-se para o Conselho. Todos se riram, - até os frades. Wellesley saiu da toca, e, daí a pouco, no rossio do convento, sob a fronde de uma velha oliveira, os generais sentavam-se em redor de um mapa estendido sobre dois tambores dos granadeiros de Wallace. Foi resolvido que o exército se concentraria e tomaria posições na serra, em toda a linha de alturas que vai do Ninho de Águia, ao noroeste, até Nossa Senhora do Monte Alto, nos contrafortes musculosos que se debruçam sobre as águas do Mondego. Wellesley encarregou desde logo o tenente-coronel Ricardo Fletcher de proceder, com os sapadores e a brigada miliciana de Trant, às obras de entrincheiramento possíveis e a abertura de uma carreteira no alto da serra, em toda a extensão da cumeada, a fim de assegurar a mobilidade das tropas, em especial das brigadas de artilharia, permitindo-lhes acudir com rapidez aos postos mais ameaçados. Na Senhora do Monte Alto tomariam posições a divisão do general Hill, a Leal Legião Lusitana e uma brigada de artilharia portuguesa; na Portela da Oliveira, a divisão de Leith e os milicianos de Tomar; em Santo António do Cântaro, a divisão de Picton e as três brigadas de artilharia inglesa e alemã; na crista mais elevada da serra, a divisão de Spencer e a brigada portuguesa independente de Pack; em Sula, dominando a altura, a divisão ligeira de Crowfurd e duas baterias de artilharia apoiadas pela brigada portuguesa independente de Coleman; depois, a legião alemã; a brigada portuguesa independente de Campbell; por fim, até ao Ninho de Águia, a divisão de Cole. A cavalaria divisionária de Cotton deveria concentrar-se, parte ao centro e à retaguarda da linha, parte no flanco direito, além-Mondego, nas margens do Ave. Não havia tempo a perder. Os generais Hill, Picton, Cole, Leith e Cotton receberam perfilados as instruções de Wellesley, montaram a cavalo com os seus ajudantes e, depois de haverem expedido piquetes com ordens de marcha para as suas tropas estacionadas em Coimbra e noutros pontos da região, partiram, acompanhados de escoltas de cavalaria inglesa, com o objectivo de reconhecer as posições que lhes tinham sido designadas. Ficaram apenas com Wellesley os generais Spencer e Crowfurd, a cujas divisões, por se encontrarem mais perto - a primeira na Mealhada, interceptando a estrada de Aveiro, a segunda em Mortágua onde já travara combates com as avançadas francesas - fora confiada a defesa da linha de alturas dominada pelo mosteiro, pelos moinhos e pela ermida das Almas do Encarnadouro. Ordenanças de dragões levaram ordens dos dois generais para que as suas tropas retirassem sobre a serra, durante a noite, sem bater um tambor ou disparar um tiro. Postaram-se vedetas em torno do convento. Quando já se avistavam ao longe as fogueiras do exército inimigo, Spencer, que se picava de falar bem francês, apontou o clarão, num gesto de ameaça:

   - Nous lês aurons!

   - Yes! - rugiu Crowfurd, trovejante.

   Wellesley, cujos olhos frios luziam na escuridão como pontas de lanças, tirou o seu chapéu de aba larga e disse, cumprimentando de longe as fogueiras que se acendiam, uma a uma, na linha do horizonte:

   - My dear Massena, good night!

 

 

Dois dias depois, na tarde de 26 de Setembro, a concentração terminara e todas as tropas anglo-portuguesas se encontravam já em posição no alto da serra, dissimuladas em ondulações do terreno, abrigadas em trincheiras onde fora possível cavá-las, ocultas nas rochas e no mato, à espera do assalto do invasor, - que se daria, porventura, na manhã seguinte. O exército francês estava à vista no fundo do vale, movendo, envoltas em poeira cintilante, as suas pesadas massas humanas. Com excepção da artilharia, cuja marcha fora lenta devido à falta de gado - não vira na sua frente senão campos devastados e povoações desertas -, os três corpos do exército de Massena tinham já tomado posições: o 2.°, do comando de Reynier, diante de Santo António do Cântaro; o 6.°, comandado por Ney, em frente de Sula; o 8.°, que tinha à sua testa Junot - ainda, havia pouco, coberto de glória em Wagram - à retaguarda, como reserva dos dois primeiros. No alto da serra, Wellesley, pelo seu óculo de campanha, seguia o espectáculo deslumbrante da manobra daquele exército de cerca de setenta mil homens, admirável instrumento de poder ao serviço do Petit corse aux cheveux tondus. Tudo parecia indicar que o primeiro choque das colunas francesas se daria com a divisão de Picton, em Santo António, ou com a divisão ligeira de Crowfurd e a brigada portuguesa independente de Coleman, aliás protegidas pela ravina penhascosa que tinha a cavaleiro os moinhos. Trazidas a galope da Portela da Oliveira, duas baterias portuguesas comandadas pelo tenente-coronel Sousa Prego vieram reforçar a artilharia inglesa, tomando posição entre o moinho de João Rana e a povoação de Sula, apoiadas por um batalhão de Caçadores l. Quando a noite caiu, nem de um, nem de outro lado se acenderam fogueiras. No campo francês, ouviram-se ainda por algum tempo o rumor surdo das massas de cavalaria que se deslocavam e o ferrolhar da artilharia em marcha. Do nosso lado toda a serra estava mergulhada em silêncio profundo. De bruços na terra, com as armas à cara, ingleses e portugueses esperavam, calados e imóveis, o salto do tigre. Wellesley, acompanhado do seu Estado-Maior, percorreu o campo, apertou a mão a Crowfurd e recolheu ao mosteiro. Ainda mal andado o tempo de três padre-nossos, ouviu-se ruído de vozes nos postos avançados, para além dos moinhos. Uma vedeta apresentou-se ao tenente-coronel Prego, comandante das baterias, participando-lhe que lá em baixo, na volta da estrada que cabritava entre os sargaçais da encosta, estavam um homem e um burro que queriam passar.

   - Passe o burro; o homem, não.

   - O homem vem montado na almarrona da besta, com licença de vossa senhoria. Diz que o burro e ele é tudo um.

   - Então, não passam, nem o homem, nem o burro.

   Ramalhavam as comas altas da mata. Num veio de água próximo, roncarejavam os sapos. A vedeta retirou-se. Daí a pouco, veio o oficial da ronda. O homem não arredava pé. Teimava em que tinha ali o seu ganha-pão e pedia que o deixassem passar.    - Quem é ele?

   - Diz que é o moleiro que trabalha neste moinho.

   - Mande-o cá. Se não falou verdade, amarra-se ao rodado de uma peça e fuzila-se.

   Daí a pouco, perante a hilaridade e o espanto dos artilheiros e dos jovens soldados de caçadores - quase todos moços de dezoito a vinte anos - João Rana assomou, no vago bruxuleio de uma lanterna, risonho, tranquilo, bonacheirão, sentado na alforjada do jumento, o ferragoulo de estamenha pelas costas, o lenço encarnado atado na cabeça, como se um moleiro castelhano da Mancha, tocado do pincel de Goya, tivesse caído ali, em plena serra.

   - Ora, Deus seja com vossemecês. Jesus, Maria, José.

   - Para onde vais? - inquiriu o comandante.

   - Para o moinho.

   - Que vais tu fazer ao moinho?

   - Sou o moleiro.

   - Pergunto-te o que vais fazer ao moinho.

   - Que vou fazer ao moinho? Vou bailar.

   - Levem este homem para o trem da artilharia e dêem-lhe vinte varadas! - ordenou Sousa Prego.

   - Não se agaste vossemecê, valha-o Deus. Que há-de um moleiro fazer no moinho, senão moer?

   - A estas horas?

   - Vou primeiro ao convento.

   - Vais-te confessar?

   - Tomara eu pecados, senhor, que confessores não faltam. Sou o moleiro dos frades. Vou buscar o trigo.

   - Acompanhem-no ao convento. Se os frades o reconhecerem, tragam-no cá. Senão, encostem-no a um muro e arcabuzem-no.

   - Então, Deus lhes dê saúde a vossemecês todos e os livre de trabalhos esta noite.

   - Quando se agradece tira-se o chapéu, entendes?

   - Só se vossemecê me emprestar o seu, que eu não tenho, - ripostou o moleiro apontando o bicorne do oficial.

Num gesto, o sargento ordenou a João Rana que seguisse na sua frente. O moleiro riu-se, tocou o burro, e, chouteando à testa da patrulha, lá foi a caminho do mosteiro, por entre as chufas dos soldados portugueses e ingleses que, deitados por terra, se soerguiam para ver passar, córrego acima, aquela figura de presépio. Quando chegaram ao convento, o quintalão de serviço, para onde davam a cozinha, a abegoaria, a adega e o celeiro dos frades, estava coalhado de carroças, de churriões, de carrucas, de calejas, de carros de bois, de azêmolas de carga, de trouxas, de fardos, de almofreixes que os leigos e os moços de lavoura, na azáfama da partida, carregavam à pressa, atirando-os para os tendais dos carros e para os seirões das bestas. Os padres iam fugir. Já estavam enterrados na horta os tesouros da igreja. A comunidade esperava apenas a resposta de Wellesley, a quem tinha mandado pedir uma escolta para a acompanhar a Coimbra ou ao paço manuelino das freiras bernardas, em Botão, que se encontrava desabitado. O sargento levou o moleiro ao comandante da guarda, que por seu turno o mandou, acompanhado de um tenente, à presença do Prior. Os frades, prontos já para a jornada, estavam reunidos na Casa do Capítulo, os largos sombreiros na cabeça, alguns deles com sacos às costas pojados de livros. João Rana olhou-os, atónito. Previra tudo, menos a abalada da comunidade, que era a alma e o coração da serra.

   - As tropas do nosso general Crowfurd mandam perguntar a Vossa Paternidade se conhece este homem, - disse o oficial.

   - Conheço-o muito bem, - respondeu Frei Manuel do Sepulcro. É o nosso moleiro.

   - Vens despedir-te de nós, amigo?

   - Eu não sabia que Vossas Paternidades deixavam o convento, - balbuciou João Rana, com o travo da comoção a apertar-lhe a garganta.

   - É a vontade de Deus. Se queres, levamos-te connosco.

   - Não, reverendo Padre. Eu vou para o moinho.

   - O moinho está no meio das tropas. Vai ser crivado de balas.  

  - Então Vossa Paternidade quer que eu desampare o meu moinho? Mal comparado, tirante o ser a casa de Deus, é como este conventinho para Vossas Paternidades. É a minha família. É um pai que ali tenho. Deu-me de comer toda a vida.  

   - Está bem. Então que vieste cá fazer?  

   - Pedir ao reverendo Padre chaveiro que me mande carregar a cavalgadura, com o perdão de Vossas Reverências, de mais três sacas de trigo, que não tenho lá nenhum.  

   - Vais pôr o moinho a trabalhar?  

   - Pois, para que é ele? Os franceses não deitam cá acima, ao alto da serra. E, se deitarem, acabou-se. Um homem é um homem, entende Vossa Paternidade? Não volta as costas ao perigo. Se morrer, morro abraçado ao meu moinho. Coitado, ele já é mais velho do que eu. Pois então, que Vossas Reverências tenham boa jornada e vão com a graça de Deus. Ámen, Jesus. os frades entreolharam-se, em silêncio. O moleiro ajoelhou-se para beijar o hábito do Prior. Ouviu-se a garrida do mosteiro tanger a matinas. - A que horas quer Vossa Paternidade a escolta, para acompanhar a comunidade a Coimbra? - perguntou o oficial da guarda.  O velho Prior baixou a fronte e, com os olhos marejados de lágrimas, respondeu: - Ainda não sei ao certo se partiremos, senhor tenente.  

 

   Pouco depois, o burro, carregado com três sacas de trigo do celeiro do convento; atrás dele, a pé, o moleiro, orgulhoso do abraço e do salvo-conduto que lhe dera um dos ajudantes de Wellesley; e, no couce, a patrulha, puseram-se a caminho de Sula, onde tomara posição a artilharia de Sousa Prego. Quando João Rana avistou os moinhos - primeiro o do Jerónimo, abandonado, depois o dele, torre negra erguida, com o seu capelo e a sua aspa de varas, na majestade augusta da noite - o coração bateu-lhe apressado. Ainda lá estava, o seu velho amigo, que conhecia de cor as tempestades da serra e que já tantas vezes - gigante resignado - afrontara o vendaval e o raio para dar humildemente pão aos homens e graças a Deus. Ao pé dos penedos, a dois passos do moinho, o Estado-Maior de Crowfurd observava atentamente o inimigo. João Rana foi levado ao comandante das baterias. O tenente-coronel Prego leu o salvo-conduto à luz da lanterna, atentou na cara de Páscoa do moleiro, e resmungou:

   - Bom. Mas no moinho não podes entrar.  

   - Saiba vossemecê que o moinho é meu.  

   - Queres morrer debaixo dos escombros?  

   - Quero.  

   - Não vês lá a sentinela? Deita-te à porta, como os cães.  

João Rana, quando o viu pelas costas, tirou o chaveirão da bojarca da cavalgadura e ia a encaminhar-se para o moinho; mas estacou diante do granadeiro inglês que guardava a porta e que lhe meteu a baioneta à cara. Nesse momento, chegava um piquete de couraceiros, a toda a brida, com uma mensagem urgente para Wellesley. Começava a assinalar-se movimento de tropas francesas em frente de Santo António do Cântaro; Picton considerava iminente o ataque à sua posição. O comandante do piquete meteu-se pelo mato, até aos penedos, para apontar a Crowfurd e aos oficiais, ao longe, a névoa que parecia subir pela montanha. Era o ataque do corpo de exército de Reynier a Santo António. Troou a artilharia - as baterias inglesas de campanha, de Dickson - reboando nas corcovas e socavões da serra. Respondeu uma salva da artilharia francesa, que mal se ouvia a distância, mas cujos clarões se adivinhavam no nevoeiro. Crowfurd, contando com o ataque simultâneo da divisão de Ney, dera ordens, distribuíra aguardente às tropas, mandara vedetas e escutas descer o matagal da encosta e procurava, de óculo em punho, surpreender os movimentos do inimigo. Na frente de Sula, porém, tudo parecia tranquilo. O piquete de couraceiros partiu, a galope, a juntar-se à divisão Cotton, a que pertencia, e a meio do caminho, quando já começava a clarear a manhã, parou num cômoro a cavaleiro da estrada de Santo António do Cântaro, donde se abrangia todo o vasto panorama do ataque. Duas divisões do corpo de exército de Reynier - a do general Houdelet e a do general Merle - precedidas de uma extensa linha de atiradores, trepavam pela serra para o assalto da posição. Logo que os batalhões franceses chegaram ao alcance do tiro da nossa infantaria, milhares de espingardas ocultas nas moitas de tojo e nas gargantas da rocha varejaram aquelas colunas rastejantes de lagartos que, açapadas, dizimadas, agarradas aos penhascos, ensanguentadas nas torgas e nos sarçais, avançavam sempre. A testa da divisão Houdelet conseguiu atingir a crista de Santo António; mas, carregada à baioneta pelos granadeiros de Wallace e pelo 8 de Infantaria portuguesa, recuou. Novos batalhões arrancaram, em massa, sob o comando do general Foy. Tudo estaria perdido se o ilustre Leith, à frente de duas brigadas portuguesas e da Leal Legião Lusitana - os "lobos verdes", de Wilson - não corresse em reforço das tropas de Picton, com tal ímpeto, que os batalhões de assalto, na confusão e na desordem, rolaram desamparadamente pelos barrancos. Quando o piquete inglês desceu a galope a estrada, na embriaguez de se lançar também no combate, apenas uma pequena força de granadeiros franceses, emboscados num pinhal, resistia ainda. Extenuados, negros de sangue e de pólvora sob os ursões enormes, as bocas abertas, os olhos esbugalhados, deixaram-se matar até ao último homem, bradando: - Vive l'Empereur!    Logo que viu as tropas de Reynier chegar às alturas de Santo António do Cântaro, Ney, cumprindo as instruções que recebera de Massena, desencadeou o ataque sobre Sula. A coberto do nevoeiro, a artilharia francesa tomou posição numa ondulação de terreno abaixo de Moira. Crowfurd surpreendeu a manobra e mandou as baterias de Sousa Prego e a brigada de artilharia britânica abrir fogo. Eram peças portuguesas de bronze, invenção do dinamarquês Weinholtz, ao nosso serviço - que podiam lançar dez a quinze bombas por minuto -, e peças inglesas de montanha, cujo projéctil - a bomba "shrapnel" - fez na Guerra Peninsular a sua gloriosa experiência. O estrondo da salva acordou os ecos da montanha, ribombou pelas quebradas, como se um raio tivesse estalado todos os troncos da floresta. Logo o outeiro onde se instalara a artilharia de Ney se coroou de rápidos clarões. As baterias francesas respondiam-nos. Um pelouro de seis arráteis, alcançando em profundidade os batalhões ingleses, matou três homens. Foi o baptismo de fogo de Crowfurd na serra. Pouco depois, outro pelouro atingia em cheio, a meia altura do roço, o moinho do Jerónimo, que abateu com fragor na claridade da antemanhã levantando nuvens de poeira. O esforço das nossas baterias redobrou, enquanto uma voz rouca, uma voz aflitiva, gritava: - Quero morrer no meu moinho! Deixem-me ir morrer no meu moinho!  Era o moleiro João Rana. O pobre homem, convencido de que o "seu moinho" - mais do que a sua casa, a sua família e o seu pão - ia ser arrasado também pela artilharia francesa, atirava-se como possesso de encontro à porta, ajoelhava-se, implorava que o deixassem entrar, e, repelido pela baioneta lampejante da sentinela - um granadeiro do 52 britânico -, batia com a cabeça pelas paredes, estendia os braços convulsos como se quisesse abraçá-las, aguentá-las de pé, soluçava - "o meu moinho, o meu rico moinho!" - em uivos de animal ferido que procura a escuridão do fojo para morrer. - Go in! - rouquejou o granadeiro, jogando um pontapé à porta, que se abriu.  

 

 Nisto, as vigias e escutas regressaram à posição. Os oficiais do Estado-Maior de Crowfurd correram, dando ordens. Ouvira-se vozes abafadas de comando. Duas divisões do corpo de exército de Ney - a de Marchand e a de Loison (o Manela, de sangrenta memória) - vinham já subindo a montanha para o ataque à linha de posições de Sula, que, na extensão de um quilómetro, desde os moinhos até à ermida das Almas, se debruçava sobre o barranco penhascoso. A divisão de Marchand avançou pela estrada; a de Loison - formigueiro coruscante - metera-se ao mato, de rastos, em silêncio, para colher de surpresa o inimigo. A crista da serra coroou-se de clarões de Inferno; sobre as tropas francesas estoiraram as bombas da nossa artilharia de campanha; e quando as primeiras colunas chegaram ao alcance das carabinas raiadas dos caçadores portugueses, que se estendiam em linha de atiradores de um extremo ao outro da posição, a fuzilaria rompeu de súbito, certeira e mortífera, como se a própria montanha, desentranhando-se em fogo, expulsasse de si os invasores. A divisão de Marchand, depois de um movimento de hesitação, retirou, sentindo nos rins a ameaça dos granadeiros ingleses e da brigada portuguesa independente de Pack (Infantarias 1 e 16). A divisão de Loison, porém, agarrou-se à terra, manteve-se firme, e, embora duramente martelada pelo 95 inglês e pelos nossos batalhões de Caçadores 3 e 4, continuou a sua escalada heróica, tropeçando nos cadáveres, escorregando na urze molhada, abraçando-se às rochas e aos troncos dos pinheiros, mas avançando sem cessar, a peito descoberto, como se para esses bravos estivesse raiando de novo o sol de Iena e de Austerlitz. Encontravam-se já os franceses a cem passos da crista, quando, de repente, se ergueu dos penedos a figura gigantesca de Crowfurd, o cachimbo aceso na boca, o sabre numa das mãos, na outra o bicorne negro, e à frente dos seus quatro regimentos ingleses - relâmpago de três mil baionetas - se atirou de encontro às vagas de assalto de Loison, que, extenuadas, fulminadas, rolaram em cachos humanos pelo despenhadeiro. Novos batalhões franceses surgiram ainda; voltaram a crepitar as descargas, como pelames rebentados de centenas de tambores; mas o 4 e o 19 portugueses carregaram sobre eles, e toda aquela massa humana palpitante cabriolou no precipício, por entre troncos de pinheiros que estalavam e abatiam com estrondo. A derrota converteu-se em fuga desordenada. A artilharia troou, metralhando os fugitivos. Aqui e além, o matagal ardia. Restava ainda, intacto, um corpo de exército: o de Junot. Mas era inútil sacrificá-lo. Massena, duque de Rivoli, príncipe de Esseling, marechal de França, que, a cavalo, ao lado de uma linda mulher fardada de tenente de lanceiros, seguia as operações pelo seu óculo de campanha, deixara de ser, perante aquela inexpugnável montanha de bronze, "l'enfant cheri de la victoire".  

O Sol erguia-se já no horizonte, inundando de claridade o vale imenso. Como se a serra tivesse voz, um hurrá! atroador pareceu romper das goelas dos rochedos e dos barrocais. Pífanos, clarins, tambores, timbales, sinos, gaitas-de-foles vibravam no ar fresco, no ar luminoso da manhã. Sentia-se a alma religiosa da floresta no rumorejo dos cedros centenários. Os padres carmelitas - que não tinham pensado mais em fugir - chegaram em procissão, de cruz alçada, para ajudar a levantar os feridos. De repente, todas as cabeças se ergueram, todos os olhos se arrasaram de lágrimas. No alto de Sula, as asas brancas do moinho de João Rana moviam-se, serenas e resplandecentes, como se os braços de Deus se erguessem para abençoar a montanha coberta de mortos. Era a vida que continuava. Era de novo o pão, o lar, o trabalho fraterno, a paz fecunda. No meio da metralha, o moleiro regulara o vento, alara as velas, caçara a travadora e pusera - herói humilde! - com a tranquilidade de todos os dias, o seu moinho a trabalhar. Quando os oficiais entraram para lhe trazer um abraço do coronel Sousa Prego, encontraram-no encostado às cambeiras, pálido, ferido de raspão na cabeça por uma bala. João Rana olhou-os, risonho, empertigou-se a custo, e, tomando nas mãos o cantil de aguardente que lhe estenderam, jogou, com o orgulho de um general que acaba de ganhar uma batalha: - Eu não disse a vossemecês que eles não botavam cá acima?

 
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publicado por Peter às 21:33

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Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

PORTA CARMELITA

 

Aqui se reproduz a imagem duma excelente

Porta Carmelita do tipo Afundação do Bussaco.

publicado por Peter às 18:02

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